domingo, 29 de outubro de 2017

Wynton Marsalis é imortalizado no Hall of Fame

O inevitável finalmente aconteceu. Na edição de dezembro deste ano (2017), o trompetista norte-americano Wynton Marsalis entrou para o Hall Of Fame da revista DownBeat.

Pelo menos essa é a opinião dos leitores da octogenário revista. Anualmente, duas votações acontecem, uma feita pelos críticos e outra pelos leitores.

Aos 56 anos, Marsalis é um dos mais jovens músicos de jazz a entrar nesse seleto grupo, que nos últimos anos recebeu nomes como Phil Woods (2016), Tony Bennett (2015), B.B. King (2014) e Pat Metheny (2013). Na votação deste ano feita pelos críticos, o saudoso trompetista Don Cherry foi o escolhido para entrar no Hall of Fame.

Apesar da precocidade de entrar para esse grupo, ninguém que acompanha o jazz duvidava que Marsalis em breve seria lembrado por leitores ou críticos da revista. Com 30 anos de carreira, o trompetista é um dos mais respeitados músicos de sua geração, intitulado de young lions, que trouxe o jazz de volta às manchetes, no início da década de 1980.

Filho do pianista Elis Marsalis, irmão do saxofonista Branford Marsalis e nascido no berço do jazz, Nova Orleans, Marsalis parecia fadado a se tornar um músico de jazz. Mas seu perfeccionismo e sua paixão pelo música o tornaram quase que um embaixador do jazz.

Sua atuação à frente do Jazz at the Lincoln Center, como diretor artístico, é reconhecida como um das mais importantes e eficazes programas educacionais para multiplicar o número de músicos e ouvinte de jazz pelos Estados Unidos. Com sede na cidade de Nova York, a casa da Jazz at Lincoln Center Orchestra (foto abaixo) se tornou visita obrigatória para todo fã de jazz que visita a cidade. Saiba mais sobre a programação aqui.


Isso sem falar nos mais de 60 discos lançados - entre CDs de jazz e clássicos -, nove Grammys, sendo que continua até hoje, 30 anos depois, a ser o único músico a receber um Grammy no mesmo ano em duas categorias diferentes, e o primeiro jazzista a ganhar o prestigiado prêmio Pulitzer.

Abaixo você escuta na íntegra os discos J Mood (1986) , que levou o Grammy de melhor disco de jazz, e Black Codes ( From The Underground) (1985), que repetiu o premiação no ano seguinte.

O legado que Wynton Marsalis deixará para o jazz já está escrito. Os críticos podem continuar a dizer que ele parou no tempo, que sua obsessão pelo jazz tradicional é um erro para que o jazz continue a se desenvolver e um atraso para as novas gerações. Wynton sempre acreditou em suas convicções e assim continuará trilhando seu caminho.







terça-feira, 24 de outubro de 2017

Hugh Masekela - The Lasting Impressions of Ooga Booga

Por 14 anos o Guia de Jazz esteve no ar com a missão de aproximar os internautas ao jazz. Um dos tópicos mais visitados era o de dicas de CDs, no qual dezenas de discos eram indicados e resenhados por mim. Infelizmente, com o fim do site em setembro de 2015, todo esse acervo foi "perdido".

Mas não totalmente perdido. Além do livro Jazz ao Seu Alcance - que traz todo o conteúdo do guia (dicas de CDs, DVDs, livros, entrevistas e muito mais) - você encontrará quinzenalmente neste blog algumas dicas de CDs publicadas anteriormente no site Guia de Jazz.

Sempre que possível, ao final de cada resenha você encontrará vídeos do Youtube com algumas faixas do disco indicado para escutar. Boa leitura e audição. Veja outras dicas de CDs aqui

Hugh Masekela - The Lasting Impressions of Ooga Booga (1996)

Para quem ainda acha que Peter Gabriel (ex-Genesis), David Byrne (ex-Talking Heads) e Paul Simon (lançou o disco Graceland, com músicos africanos, em 1986) são os únicos responsáveis pela mistura de ritmos que foi rotulada de world music, fica aqui um aviso: eles chegaram tarde. Isso não quer dizer que não há mérito na preocupação desses três senhores em divulgar e usar a música africana, latina e oriental nos mais diferentes ritmos norte-americanos como o pop, o rock e o jazz.

Muito antes de Gabriel, Byrne e Simon, os Estados Unidos já tinham experimentado a fusão de sua música com ritmos de outras partes do mundo. Entre os músicos que iniciaram este casamento estão Dizzy Gillespie e Harry Belafonte. O primeiro mesclou o jazz com a música latina e o segundo introduziu a música africana e caribenha entre os ouvintes americanos. Filho de imigrantes caribenhos, Belafonte foi um dos mais influentes artistas negros dos anos 60 e foi o responsável pela vinda do trompetista sul-africano Hugh Masekela aos Estados Unidos.

Assim como a cantora Mirian Makeba e o saxofonista Fela Kuti, Masekela não renegou suas origens e conciliou como poucos a música africana com o jazz. O trompetista chegou a América aos 21 anos de idade, mas só faria sucesso em 1968, com a música “Grazing In the Grass”. Antes disso, o músico tocou em vários clubes de Nova York e casou-se com Makeba (a união durou apenas dois anos).



O disco The Lasting Impressions of Ooga Booga traz o registro do show realizado no Village Gate, em 1965. Originalmente, essas gravações foram lançadas em dois discos distintos, mas aqui estão juntas em um único CD. Para acompanhar seu trompete, ele escalou o habilidoso pianista Larry Willis, o baterista Henry Jenkins e o baixista Harold Dotson.

Logo de saída, Masekela abre espaço para três composições de Makeba, entre elas “Dzinorabiro”. Na sequência, Willis toca os primeiros acordes de “Cantaloupe Island”, de Herbie Hancock, e o jazz mostra-se por inteiro. O compositor Masekela aparece em “U-Dwi” e em “Mixolydia”, tema dedicado a Miles Davis e John Coltrane.

A música latina também tem espaço no repertório com “Con Mucho Carino” e “Mas Que Nada”, clássica melodia composta pelo brasileiro Jorge Ben Jor. O jazz volta a tomar conta na introspectiva “Where Are You Going?” e em “Bo Masekela”. Para fechar, Masekela toca “Unohilo”, composta pelo sul-africano Alan Salenga.

Em tempos de mundo globalizado e sem fronteiras e de um presidente norte-americano negro, a música de Hugh Masekela não poderia estar em um ambiente mais apropriado e atual. Parafraseando os estudiosos no assunto, a música é uma linguagem universal e deve ser usada para aproximar os povos e diminuir as diferenças culturais entre eles. Que assim seja.





terça-feira, 10 de outubro de 2017

Thelonious Monk chega aos 100

O jazz nunca mais foi o mesmo após o aparecimento do pianista norte-americano Thelonious Monk. No início da década de 1940, Monk mostrou ao mundo uma maneira única de tocar e ajudou Dizzy Gillespie e Charlie Parker a criar o bebop. o resto é história.

Em 2017, o mundo do jazz festeja o centenário do músico, nascido em 10 de outubro de 1917. Ele morreu aos 64 anos, em 17 de fevereiro de 1982.

A excentricidade do toque de Monk, sua inquietação ao se apresentar ao vivo e, é claro, seus inseparáveis chapéus chamativos acabaram criando uma figura, muitas vezes, não compreendida pelos críticos. Mas Monk era Monk. Ela tocava o que sentia e da maneira que queria.

Sua genialidade ficou marcada em hinos do jazz como "Round Midnight", "Epistrophy" e "Blue Monk". Em 2005, uma gravação perdida ao lado do saxofonista John Coltrane, gravada no Carnegie Hall, em 1957, trouxe para as novas gerações todo o espírito inovador de dois gênios do jazz. Ouça abaixo o disco na íntegra.



A discografia de Monk tem momentos marcantes. Além do citado disco com Coltrane, preciosidades como Live At The It Club, de 1964, Monk's Blues, de 1968, ao lado da orquestra comandada por Oliver Nelson, e Brilliant Corners, de 1956, com Sonny Rollins no sax, são gravações fundamentais para se "entender" a obra, a complexidade e a forma única de Monk se expressar.

Em 1988, o filme A Vida e a Música de Thelonious Monk, que em inglês se chama Monk: Straight, No Chaser, mostra cenas inéditas do pianista nos bastidores, no palco e em seu cotidiano. As imagens filmadas por Michael e Christian Blackwood ficaram "hibernando" por anos até que o cineasta Bruce Ricker colocou suas mãos nelas.

Em 2016, o pianista e arranjador John Beasley lançou o projeto MONKestra, que traz a obra de Monk arranjada para uma big bang. Os dois volumes comandados por Beasley foram lançados pela gravadora Mack Avenue. Veja a seguir uma faixa deste CD.



A seguir você encontra, na íntegra, um dos discos mais marcantes do pianista e uma apresentação gravada na Dinamarca e na Noruega, em 1966. Destaque para o saxofonista Charlie Rouse.